Linus Torvalds e a ética da GPL PDF Imprimir E-mail
Escrito por augusto   
Seg, 30 de Maio de 2011 16:13

 

por augusto |
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Os aniversários de 20 anos do Linux serão comemorados no segundo semestre deste ano, e as iniciativas de rememorar este longo histórico – em especial as partes que ocorreram antes de o Linux se tornar um nome conhecido no meio tecnológico – já começam a se multiplicar. Algumas dessas iniciativas são realizadas com grandes recursos e roteiros minuciosamente planejados, como osvídeos comemorativos que a Linux Foundation anda preparando, e merecem ser apreciadas e comemoradas.

Mas outras, realizadas por integrantes da comunidade com pouco orçamento mas muita afinidade com o sistema, surpreendem pela abordagem direta e profunda – como a entrevista que um grupo de usuários francês realizou com Linus Torvalds, o criador do sistema, e na qual colocou em pauta não as já batidas circunstâncias da criação do sistema, mas sim boa parte dos assuntos polêmicos relacionados ao Linux ou sobre os quais seu autor se manifestou ao longo das últimas 2 décadas.

Estão presentes lá a questão da comparação entre microkernels e kernels monolíticos, o fork realizado pelo Google no Android, a dificuldade de expandir a presença do Linux no desktop, a competição entre os compiladores livres LLVM e GCC,  a questão das patentes de software, e mais.

Mas por que “os aniversários”?

Antes de prosseguir, é necessário abrir parênteses para explicar isso: devido à forma como foi criado e desenvolvido, não existe uma única data em que se comemore o nascimento do Linux.

No lugar disso, há pelo menos 4 datas diferentes:

  • A data do primeiro registro disponível de que Linus já estava trabalhando no projeto  (3 de julho de 1991)
  • O dia em que ele comunicou ao público em geral pela primeira vez que estava desenvolvendo o sistema (25 de agosto)
  • O dia do lançamento da versão 0.01, que não foi pública (17 de setembro)
  • O dia do lançamento da primeira versão pública (0.02, em 5/10)

A razão da indefinição é simples: não há alguém interessado em decidir por apenas uma delas. O próprio Torvalds trata a questão de forma bem-humorada e recomenda que se alguém quiser garantir comemorar a data certa, o melhor é providenciar 4 bolos ;-)

A licença GPL

Retornando à entrevista sobre temas polêmicos, há um entre eles que me chamou especialmente a atenção: a questão do licenciamento e a escolha da GPL para governar o uso, estudo, modificação e redistribuição do Linux.

Sabe-se que a relação entre o autor original do Linux e a Free Software Foundation, entidade que criou a licença GPL, é intrincada: cada um dos lados adota e aprecia os frutos do trabalho do outro lado,  mas não perde oportunidades de esclarecer que há divergências filosóficas entre seus posicionamentos.

E na entrevista, Linus aproveitou para expor claramente a raiz da divergência no que diz respeito ao uso da licença GPL. E o problema, conforme descrito, é simples: ele escolheu esta licença por uma razão prática: ela expressa o que ele desejava fazer com o código: permitir que qualquer pessoa interessada pudesse usar e redistribuir, mas se redistribuir com alteração, precisaria redistribuir  também o código-fonte correspondente a ela.

Ao mesmo tempo, na visão dele, há pessoas que acreditam que a licença GPL é “a” opção ética de licenciamento para este tipo de software, e tentam empurrar ou impor esta visão aos outros, ou tem a expectativa de que os desenvolvedores do Linux coletivamente deveriam também contribuir ativamente para propagar esta visão da GPL como “a escolha ética” para licenciamento de software.

Para eles, Linus responde na entrevista: ele considera que sua escolha de licenciamento foi ética, mas a ética estava no seu ato de escolha, sem residir na licença em si. Para ele, outras escolhas de termos de licenciamento, como as licenças livres permissivas (sem a exigência de reciprocidade presente na GPL), ou mesmo as licenças proprietárias, também permitem opções éticas de licenciamento aos autores que as escolhem.

E ele mesmo sumariza, em tradução livre:  “Tentar empurrar alguma licença como sendo ‘a escolha ética’ me dá raiva. Mesmo.”

Ética, política e licenciamento

Pessoalmente acredito que a maioria dos atos conscientes têm algum conteúdo ético e político, e isso se estende aos 2 lados da questão: tanto a quem defende que a ética não reside na licença em si, quanto a quem tenta empurrar uma licença caracterizando-a como “a” opção ética de licenciamento.

No caso em estudo, me alinho aos que acreditam que não existe apenas uma opção ética de licenciamento, e optar pela liberdade com restrições mínimas das licenças BSD,  pela liberdade com exigência de reciprocidade da licença GPL, ou por reservar os direitos autorais são 3 opções que assistem aos autores, e todas elas podem ser éticas ou antiéticas, dependendo de circunstâncias que vão bem além do texto da licença em si.

Assim como acontece com outros movimentos que avaliaram e chegaram à conclusão de que a sua posição sobre alguma questão (dieta, vestuário, resolução de conflitos entre nações, regime econômico, etc.) é a única que é abraçada pela ética, geralmente a discussão de movimentos a favor de determinados posicionamentos (definidos por eles como “a escolha ética”) com quem não pertence ao mesmo movimento fica mais difícil, pois os objetivos, premissas e paradigmas adotados não são os mesmos, e as opções defendidas são encaradas como imperativos absolutos.

Mas não há razão para pessimismo: o Linux só tem 20 anos, ainda ha muito tempo pela frente para que prevaleça o consenso – ou não ;-)

Fonte: http://www.techtudo.com.br/platb/linux/

Última atualização em Seg, 30 de Maio de 2011 21:56
 

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